PUBLICADO EM 11/09/2019

        

Os índios e o Brasil

Sérgio Sérvulo da Cunha


Vejam essa foto.

*


Ela mostra uma índia guajá (Maranhão), alimentando ao peito um porquinho do mato. Na verdade, eu pretendia mostrar-lhes a foto de índia alimentando ao seio um cachorrinho, feita pelo antropólogo Lévi-Strauss em sua estadia no Brasil nos anos (19)30, antes de escrever “Tristes trópicos”. Mas, infelizmente, não a encontrei.
É outra, bem diferente da nossa, a atitude do índio com relação à natureza e à Mãe Terra.  No seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak denuncia as corporações que querem separar, dela, quem não está “treinado para dominar esse recurso natural”. Na mentalidade do predador branco, que açula no governo seus esbirros, por ser um desperdício tanta terra com madeira e minério, é preciso queimá-la por cima e estripar por baixo, para fazer dinheiro.   
Ao chegar à ilha de Guanaani, observando os habitantes do Novo Mundo, seu ânimo pacífico e suas poucas armas, Cristóvão Colombo registrou em seu diário: "Eu poderia conquistar a totalidade deles com cinquenta homens e governá-los como quisesse."  Foi o que se pôs a fazer o espanhol Hernán Cortês, pouco depois, com brutal ferocidade. A coleção das suas cartas, onde narra a conquista do México, é um dos mais terríveis atestados da selvageria do homem branco. Para justificá-la se disse que os índios não eram seres humanos. Em sua defesa poucos se levantaram, dentre os quais o fulgurante frei Bartolomeu de las Casas, que foi bispo de Chiapas. Abandonou-se desde então aquela perspectiva, mas os índios continuaram tratados, pelo homem branco, como inferiores.
No Brasil, não obstante a voz profética de José Bonifácio, eles eram dizimados até que entrasse, pelo sertão, um militar chamado Cândido Mariano da Silva Rondon, que ascenderia ao marechalato e daria nome ao Estado de Rondônia. Rondon, criador do Serviço de Proteção aos Índios, ao tentar contatá-los, dizia: “morrer se preciso for, matar nunca”. A partir dele criou-se a política indigenista que nos orgulha como brasileiros; em cuja galeria figuram, entre tantos outros, apóstolos da estatura de Curt Nimuendaju, Herbert Baldus, Eduardo Galvão, Darcy Ribeiro, Mércio Pereira Gomes, e por isso prevaleceu no século XX, foi incorporada à Constituição de 1988, e permitiu a preservação das terras indígenas,  assim como a recuperação de etnias à beira da extinção. Elas são hoje aproximadamente 250 (extinguiram-se aproximadamente 500), que falam mais de 150 línguas e dialetos. 
Nessa foto, a índia Huirá  está ajoelhada, com seu filho Tamataí ao colo. Posso me ajoelhar diante dela, mas não sei se conseguirei chegar à sua altura.

  • crédito da foto: Pisco del Gaiso

 

CLIQUE AQUI E CONFIRA OS EDITORIAIS PUBLICADOS ANTERIORMENTE

 

© Copyright 2012 - Sérgio Sérvulo da Cunha

Desenvolvido por LC22 Studio